Lesões

Lesões no Futebol

Dr. Gustavo Arliani

A prática de esportes encontra-se, atualmente, difundida por todo o planeta, sendo os benefícios associados a atividade física bem documentados em todas as faixas etárias. A participação regular em esportes está associada a uma melhor qualidade de vida e redução do risco de várias doenças, contribuindo ainda para uma melhora da participação social e desempenho físico dos praticantes. No entanto, os efeitos benéficos da prática de esportes devem ser equilibrados com as lesões que são, até certo ponto, inevitáveis.(1)

O futebol é indubitavelmente o esporte mais popular do mundo. Esta modalidade conta atualmente em todo o mundo com cerca de 200.000 atletas profissionais e 240 milhões de jogadores amadores dos quais aproximadamente 80% são do sexo masculino. (2, 3)

O futebol tem regras, regulamentos e um estilo de jogo que é diferente de qualquer outro esporte. As características do futebol imprimem uma demanda significativa nas habilidades físicas e técnicas de cada atleta. Conseqüentemente muitos dos padrões de lesões e problemas médicos são únicos.(4)
        
O risco de lesão no futebol profissional é elevado. Estudos mostraram que o risco de lesões é 1000 vezes maior em jogadores profissionais de futebol quando comparados com trabalhadores da indústria.(5)

Como esporte, o futebol tem sofrido muitas mudanças nos últimos anos, principalmente em função das exigências físicas cada vez maiores, o que obriga os atletas a trabalharem perto do limite máximo, com maior predisposição às lesões.  

A incidência de lesões no futebol é estimada em aproximadamente 10 a 15 lesões para cada 1000 horas de prática esportiva. No entanto, esta estatística varia bastante nos diversos estudos dependendo da definição de lesão utilizada e desenho do estudo.(6)

A incidência das lesões relacionadas ao futebol varia muito quando avaliadas as diversas atividades e grupos de praticantes. Sendo que mulheres, por exemplo, apresentam maior incidência de ruptura do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) quando comparadas com homens.(7) Já alguns estudos sugerem uma maior incidência de lesões em atletas profissionais quando comparados com praticantes amadores. (8)

No futebol as lesões mais comuns acometem os membros inferiores (70-80%) sendo que a maioria envolvem as articulações do joelho, tornozelo e a musculatura da coxa. (9) A maior parte destas lesões ocorrem durante os jogos e quando realizada uma estimativa baseada nos dados existentes atualmente conclui-se que cada jogador apresentará, em média, uma lesão relacionada ao futebol por ano.(2)

Os tipos mais comuns de lesões do esporte são os entorses, estiramentos e contusões. A maioria das lesões são de origem traumática, sendo que aproximadamente 20% (vinte por cento) destas são atribuídas a jogadas faltosas ocorridas durante o jogo. (4)

As recidivas de lesões são bastante frequentes e representam 20 a 25% de todas as lesões. Desta forma a avaliação em relação a lesões prévias e reabilitação inadequada ganham grande importância neste esporte. (4)

Os atletas mais acometidos são os meio-campistas e atacantes, com os goleiros sendo os menos afetados por lesões no futebol. Apesar de frequentes, as lesões no futebol são , em geral,  leves, permitindo em sua grande maioria o retorno ao esporte em até uma semana.(10)

Extremidade Superior

As lesões da extremidade superior em atletas praticantes de futebol são menos comuns que as dos membros inferiores.(10) Estas lesões quando presentes geralmente não são responsáveis pelo afastamento dos atletas ou quando isto ocorre, o tiram da prática esportiva por um intervalo de tempo geralmente menor quando comparada com as lesões das extremidades inferiores. As lesões da extremidade superior envolvem, predominantemente, os  goleiros.(4)

Cabeça e Face

As lesões envolvendo a cabeça são, sem dúvida, as mais preocupantes existentes neste esporte.

A concussão é o tipo de lesão mais comum entre as lesões envolvendo a cabeça. Esta lesão muita das vezes é de difícil reconhecimento e por isso acredita-se que seja subdiagnosticada no futebol.(11)

Esta é caracterizada  por amnésia ou confusão na presença ou ausência de perda de consciência. Sintomas podem incluir dor de cabeça, irritabilidade, fadiga, perda de memória e concentracão.

Estas lesões podem ocorrer através de trauma da cabeça contra a bola, solo, trave ou contato com outro atleta.

Um estudo com atletas profissionais de futebol do sexo masculino mostrou que 89% destes atletas relataram algum tipo de trauma na cabeça durante a prática esportiva e 54% destes possuiam história prévia de concussão .(12)

Outras lesões na cabeça menos comuns, mas não menos graves, são os hematomas epidurais e subdurais.

Lesões na face geralmente correspondem a lacerações, abrasões e contusões.

As lesões oculares geralmente não são graves. Hemorragia retinal e vítrea, abrasão da córnea e lesões retinais já foram descritas em atletas de futebol. (13)

A utilização de protetores bucais podem reduzir o risco de lesões dentárias, particularmente em goleiros.(4)

Ombro

As lesões do ombro no futebol são relativamente infreqüentes e geralmente são resultado de colisão com o solo ou outro atleta. As articulações acrômio-clavicular e glenoumeral são as mais acometidas. Luxações do ombro após redução devem ser tratadas com cautela com o objetivo de evitar luxações recidivantes desta articulação. Estas lesões parecem ser mais frequentes em goleiros, sendo que muitos destes acabam necessitando de tratamento cirúrgico para correção da instabilidade articular.(14)

Extremidade Inferior

As lesões dos membros inferiores são as mais frequentes no futebol.(10)

As lesões musculares são as lesões mais comuns da prática esportiva e são responsáveis por aproximadamente 40% de todas as lesões do futebol. Acometem preponderantemente os membros inferiores sendo mais comuns em músculos biarticulares como tríceps sural, isquiotibiais e quadríceps.

Esta lesões são classificadas de acordo com a gravidade em:

• Leve ou grau I: menos de 5% das fibras acometidas. Não há perda da função.
• Moderada ou grau II: 5 a 50% da fibras acometidas. Presença de gap palpável.
• Grave ou grau III: mais de 50% das fibras acometidas. Paciente com perda funcional e  gap muscular visível.

O diagnóstico geralmente não é difícil, sendo o maior desafio localizado na prevenção e tratamento destas lesões.

O tratamento e o tempo de afastamento dos atletas variam de acordo com o grau e característica da lesão. No entanto, a imensa maioria das lesões apresenta tratamento não-cirúrgico. Na fase aguda, o tratamento consiste no protocolo PRICE (Proteção, Repouso, Gelo, Compressão e Elevação do membro acometido).(4)

Joelho

As lesões agudas do joelho no futebol geralmente são resultantes de movimentos rotacionais da articulação com o pé preso no solo.

Estas lesões podem envolver estruturas como ligamentos (Ligamento Cruzado Anterior, Ligamento Colateral Medial, etc), cartilagem e meniscos. Após a lesão, o atleta cursa normalmente com edema, derrame articular, dor e eventualmente com travamento e/ou falseio na articulação.

Após exame clínico minucioso, exames complementares (Radiografias, Ressonância Magnética) podem ser solicitados para confirmação diagnóstica e eventual programação de cirurgia.

O tempo de afastamento do futebol varia de acordo com a estrutura lesada e a modalidade de tratamento realizada, podendo chegar até a 6 a 9 meses para retorno ao esporte.

Fraturas de tíbia não são incomuns neste esporte. O mecanismo de lesão pode corresponder a um movimento de rotação de baixa energia ou até mesmo a um trauma direto sobre o membro. O uso de caneleiras protetoras é obrigatório no esporte e é útil na prevenção destas fraturas a medida que proporcionam uma dissipação das forças diminuindo a magnitude do impacto recebido na região.
Outras afecções menos comuns envolvendo o joelho do jogador de futebol são oriundas de traumas repetitivos (overuse) como a tendinite patelar, tendinite da pata de ganso e síndrome do trato iliotibial.(4)

Tornozelo

O entorse de tornozelo é a lesão mais frequente no tornozelo de jogadores de futebol. O mecanismo de lesão geralmente ocorre com inversão do tornozelo e lesão das estruturas ligamentares laterais. A gravidade da lesão depende do número de ligamentos envolvidos e do grau de comprometimento dos mesmos. Lesões associadas como fraturas, lesões da cartilagem articular e da sindesmose devem ser investigadas e excluídas.

Outras lesões envolvendo esta articulação em atletas de futebol são as tendinites que podem acometer os tendões fibulares, tendão do músculo tibial posterior, tendão calcâneo entre outros.

As rupturas do tendão calcâneo em jogadores de futebol geralmente são resultados de processos crônicos degenerativos com tendinite crônica e tendinose.

Já a Síndrome do Impacto do tornozelo ocorre em jogadores de futebol como resultado da tração anterior e impacto posterior durante os chutes. Osteófitos tibiotalares são frequentemente vistos em radiografias do tornozelo de jogadores de futebol, normalmente não apresentando representação clínica. Normalmente estes atletas não apresentam queixas, porém estes traumas de repetição podem levar a uma dor crônica no tornozelo.(4)

Referências:

1. Maffulli N, Longo UG, Gougoulias N, Caine D, Denaro V. Sport injuries: a review of outcomes. Br Med Bull. 2010;97(1):47-80.
2. Junge A, Dvorak J. Soccer injuries: a review on incidence and prevention. Sports Med. 2004;34(13):929-38.
3. Timpka T, Risto O, Bjormsjo M. Boys soccer league injuries: a community-based study of time-loss from sports participation and long-term sequelae. Eur J Public Health. 2008 Feb;18(1):19-24.
4. Manning MR, Levy RS. Soccer. Phys Med Rehabil Clin N Am. 2006 Aug;17(3):677-95, vii.
5. Hawkins RD, Fuller CW. A prospective epidemiological study of injuries in four English professional football clubs. Br J Sports Med. 1999 Jun;33(3):196-203.
6. Dvorak J, Junge A. Football injuries and physical symptoms. A review of the literature. Am J Sports Med. 2000;28(5 Suppl):S3-9.
7. Walden M, Hagglund M, Werner J, Ekstrand J. The epidemiology of anterior cruciate ligament injury in football (soccer): a review of the literature from a gender-related perspective. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2011 Jan;19(1):3-10.
8. Peterson L, Junge A, Chomiak J, Graf-Baumann T, Dvorak J. Incidence of football injuries and complaints in different age groups and skill-level groups. Am J Sports Med. 2000;28(5 Suppl):S51-7.
9. Wong P, Hong Y. Soccer injury in the lower extremities. Br J Sports Med. 2005 Aug;39(8):473-82.
10. Cohen M, Abdalla R, Ejnisman B, Amaro J. Lesões Ortopédicas no futebol. Rev Bras Ortop. 1997;32(12):940-4.
11. Boden BP, Kirkendall DT, Garrett WE, Jr. Concussion incidence in elite college soccer players. Am J Sports Med. 1998 Mar-Apr;26(2):238-41.
12. Asken MJ, Schwartz RC. Heading the Ball in Soccer: What's the Risk of Brain Injury? Phys Sportsmed. 1998 Nov;26(11):37-44.
13. Capao Filipe JA. Soccer (football) ocular injuries: an important eye health problem. Br J Ophthalmol. 2004 Feb;88(2):159-60.
14. Fried T, Lloyd GJ. An overview of common soccer injuries. Management and prevention. Sports Med. 1992 Oct;14(4):269-75.